A supervisão constitui um dos pilares fundamentais da formação em psicoterapia psicanalítica. Mais do que um requisito formativo, é um espaço vivo de reflexão, elaboração e crescimento clínico.

Fazer supervisão é essencial à prática da psicoterapia psicodinâmica, não apenas como garantia da qualidade do nosso trabalho, mas também porque cada terapeuta traz inevitavelmente para a clínica o seu próprio olhar, história e subjetividade. Existem sempre pontos cegos, movimentos difíceis de reconhecer e momentos em que o pensar clínico necessita do olhar de um outro. A supervisão surge então como um convite à introspeção e à reflexão partilhada sobre a complexidade da relação terapêutica.

Para que esse trabalho seja verdadeiramente transformador, a supervisão deve constituir-se como um espaço seguro, assente na confiança, autenticidade e possibilidade de vulnerabilidade. Só assim é possível pensar livremente, duvidar, aprender e evoluir nesta arte profundamente humana que é a psicoterapia psicanalítica.

O trabalho clínico pode ser, muitas vezes, solitário. Habitamos diariamente o mundo interno dos nossos pacientes, sustentando angústias, silêncios e conflitos emocionais que exigem de nós uma constante capacidade de elaboração. Por isso, torna-se fundamental permanecermos em contacto com outros colegas e em permanente formação. A psicoterapia é, talvez acima de tudo, a arte da complexidade relacional.

Sobretudo no início da vida clínica, a insegurança é natural e até desejável. Reconhecer que não existem certezas absolutas no encontro terapêutico é, paradoxalmente, aquilo que mais nos aproxima de uma escuta genuína. A supervisão assume então um papel essencial na construção da identidade psicoterapêutica, ajudando o terapeuta a organizar o pensamento clínico e a apaziguar as suas inquietações.

A supervisão pode ser individual ou em grupo, sendo ambas experiências valiosas e complementares. Se, por um lado, a supervisão individual permite maior aprofundamento da relação com o supervisor, por outro, a supervisão em grupo oferece a riqueza da partilha e do contacto com diferentes formas de pensar a clínica.

Também a relação entre supervisor e supervisando se transforma ao longo do tempo. Tal como na psicoterapia, constrói-se progressivamente uma relação de confiança e proximidade que amadurece com o trabalho partilhado. Talvez um dos momentos mais simbólicos desse percurso, seja precisamente a passagem de supervisando a supervisor — um movimento de transmissão que nos recorda que, na supervisão, tal como na psicoterapia, nunca deixamos verdadeiramente de aprender com o outro.

Caminhamos juntos?

Nota: Este artigo foi escrito com acordo ortográfico, por opção do autor.

Margarida Godinho

Margarida Godinho

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Individual, de Casal e Família
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