O problema da perfeição não está na vontade de fazer bem. Está na impossibilidade de habitar a própria humanidade, com as suas falhas, os seus limites e as suas zonas de sombra.

Na clínica, é frequente escutarmos a angústia de quem se sente constantemente insuficiente. Por mais que faça, por mais que alcance, há sempre uma voz interior a dizer: “poderias ter feito melhor”. Esta exigência empurra para a exaustão e tem raízes profundas, muitas vezes inconscientes.

Na infância, aprendemos que determinadas atitudes, comportamentos ou emoções são mais aceitáveis do que outras. O carinho, a atenção e o reconhecimento que recebemos podem ter vindo, por vezes, como recompensa pela obediência, pelo bom desempenho, pela contenção de partes de nós que foram consideradas “demasiado”. Aos poucos, o desejo de amor transforma-se numa missão: temos de ser bons, irrepreensíveis, temos de ser… perfeitos.

Pelo olhar psicanalítico, compreendemos a busca pela perfeição como um mecanismo defensivo. Uma tentativa de evitar o contacto com a falha, a vergonha, a perda ou a sensação de sermos intrinsecamente “errados”, faltantes, insuficientes. O superego, essa instância psíquica que internaliza as normas parentais e sociais, pode tornar-se um tirano. Exige, censura, pune — em nome de um ideal de Eu que nunca se alcança.

O problema da perfeição não está na vontade de fazer bem. Está na impossibilidade de habitar a própria humanidade, com as suas falhas, os seus limites e as suas zonas de sombra. A exigência pela perfeição impede o contacto genuíno com o outro, porque nos obriga a representar papéis – em vez de “simplesmente” sermos quem somos.

Perguntar “porque preciso de ser perfeito?” é, muitas vezes, o começo de um caminho de reencontro com a parte de nós que, em algum momento, aprendeu que ser simplesmente humano não era suficiente.

Na psicoterapia, abrimos espaço e desbravamos caminho para olhar para estas ideias internalizadas com curiosidade, acolhimento e muito respeito. E para, quem sabe, aprender a viver com menos medo de errar — e mais liberdade para ser.

Andreia Cavaca

Andreia Cavaca

Directora Clínica Área Psicoterapia, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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"O desejo de amor transforma-se numa missão: temos de ser bons, irrepreensíveis, temos de ser... perfeitos."