Entre o desejo de ajudar e a capacidade de escutar

Começar a clínica é, quase sempre, um movimento de coragem. Coragem para nos expormos ao desconhecido, para habitarmos um lugar de responsabilidade e, ao mesmo tempo, de vulnerabilidade.

No início, trazemos na bagagem a densidade e a complexidade da teoria mas também a leveza e a liberdade do sonho, do desejo de ser útil, de compreender, de aliviar a dor do outro. Mas a realidade clínica mostra-nos que o trabalho terapêutico é mais sobre acompanhar do que resolver, mais sobre escutar do que responder, mais sobre questionar do que orientar.

E muitas vezes, este é o primeiro desafio: equilibrar o saber fazer com o saber ser e estar.

Outro desafio surge quando, neste caminhar lado a lado, somos confrontados com o silêncio. O silêncio do paciente, que por vezes nos paralisa; o nosso próprio silêncio, quando nos faltam palavras; e o silêncio do espaço interno, onde surgem inseguranças, medos e dúvidas.

A formação teórica oferece ferramentas, mas é na prática que se aprende o ritmo da escuta, o tempo da palavra e a importância da presença (e do silêncio elaborativo). E a prática faz-se de tempo, de espaço e de relação.

Há também o desafio de sustentar o “não saber”. A tentação de interpretar depressa, de preencher o vazio, de confirmar a própria competência e oferecer resultados é grande. Mas é precisamente neste intervalo — entre a urgência de fazer e a capacidade de esperar — que o manejo clínico e ético ganha corpo, forma.

Aprender a tolerar o que ainda não se entende é talvez uma das tarefas mais difíceis e mais fundadoras do nosso ofício.

Outro desafio é o da identidade terapêutica. Cada um de nós, nos primeiros anos de prática, procura o seu modo de estar, de escutar, de intervir. A teoria oferece enquadramentos, mas não nos dá “voz”. A identidade terapêutica não se forma de um dia para o outro, é um processo lento, feito de encontros, erros e da capacidade de se deixar transformar por cada paciente; um processo construído ao longo dos anos – e, na verdade, até ao final da carreira. Porque o bom psicoterapeuta está em permanente actualização, questionamento e revisão das suas intervenções e práticas clínicas.

Por todos estes desafios, o início da prática não deve ser vivido em solidão. A supervisão e os espaços de partilha entre pares não são meros apoios técnicos — são lugares de pensamento, de contenção e de formação contínua. É ali que encontramos um espelho que nos ajuda a compreender o que se passa dentro e fora da sessão, o que é nosso e o que é do outro, o que precisa de ser dito e o que deve continuar a ser escutado.
Ser terapeuta é um verbo que se conjuga no espaço, no tempo e na relação. A cada novo paciente, a clínica recomeça. E é neste recomeçar constante que, lentamente, nos fazemos terapeutas.

Caminhamos juntos?

 

Andreia Cavaca

Andreia Cavaca

Directora Clínica Área Psicoterapia, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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