Há uma ideia silenciosa que parece acompanhar muitos de nós: a de que estar disponível é uma medida da nossa dedicação.
Quanto mais presentes estamos, mais comprometidos parecemos. Quanto menos interrompemos, mais responsáveis nos sentimos.
Mas será mesmo assim?
A relação terapêutica não se constrói sobre a disponibilidade permanente do terapeuta. Constrói-se sobre um enquadramento consistente, previsível e suficientemente seguro para que a presença e a ausência possam ambas ser pensadas.
As férias não suspendem apenas as sessões. Suspendem uma rotina relacional que, para muitos pacientes, tem um lugar importante na organização da vida psíquica. Podem despertar sentimentos de perda, abandono, zanga, alívio ou autonomia. Tudo isto faz parte do processo terapêutico e pode, inclusivamente, tornar-se matéria clínica de enorme riqueza.
Mas as férias mobilizam também o terapeuta. Há quem sinta culpa por interromper processos. Há quem tenha receio de que determinados pacientes não regressem. Há quem descubra que lhe custa mais desligar do que imaginava.
E há ainda uma realidade menos falada: na prática privada, parar significa frequentemente deixar de receber. Cada semana de descanso tem um custo financeiro concreto, obrigando muitos colegas a equilibrar o cuidado de si com a sustentabilidade da sua atividade profissional.
Talvez por isso alguns terapeutas adiem férias, reduzam os dias de descanso ou mantenham uma disponibilidade difícil de sustentar.
Vale a pena perguntar de onde nasce essa dificuldade. Será apenas responsabilidade clínica? Ou haverá também uma fantasia, muitas vezes inconsciente, de que somos indispensáveis ao funcionamento dos nossos pacientes?
Paradoxalmente, uma das tarefas da psicoterapia é precisamente ajudar o outro a descobrir que pode continuar a pensar, sentir e viver mesmo quando o terapeuta não está presente. A separação não tem de ser abandono. Parar não tem de ser vivido com desamparo.
Interromper um processo para férias é confiar naquilo que foi construído. É reconhecer que a relação terapêutica não existe apenas na sessão, mas também no espaço interno que ambos vamos construindo ao longo do processo.
Assim, é preciso entender que as férias também fazem parte da clínica, uma vez que recordam ao paciente, e a nós terapeutas, que uma relação suficientemente boa consegue sobreviver à ausência.
Caminhamos juntos?

