Setembro traz consigo o Dia Nacional do Psicólogo. É uma data simbólica, que nos convida à reflexão sobre o lugar da psicologia no mundo contemporâneo, sobre o papel do psicólogo na teia social e sobre o que permanece essencial nesta profissão tão exigente.
Ser psicólogo é, em muitos sentidos, trabalhar com o que não se vê. Somos convocados a escutar o que ainda não tem nome, a sustentar o tempo do não saber, a conter a angústia do que ainda não se transformou em pensamento.
Este trabalho é feito, muitas vezes, contra a corrente. Vivemos num tempo marcado pela pressa, pela produtividade, pelo imediatismo. As dores precisam de nome e de solução rápida. Diagnósticos, medicação, adormecimento, anestesia. E, neste contexto, o psicólogo pode sentir-se deslocado, pressionado a adaptar-se a lógicas que o afastam da sua função essencial: a de escutar profundamente, sem tempo, sem pressa, sem julgamento.
Na clínica, somos testemunhas silenciosas da complexidade da existência humana. Não estamos ali para resolver, para corrigir ou para oferecer respostas feitas e soluções mágicas. Estamos para acompanhar, para ouvir o que dói, o que se repete, o que não é dito, o que permanece por traduzir. Caminhamos lado a lado para abrir espaço a outras possibilidades de ser, de sentir e de narrar a própria história.
Ser psicólogo é também habitar um lugar ético. Não basta ter conhecimento técnico ou domínio teórico. É preciso cuidar do modo como se escuta, do que se faz com aquilo que nos é confiado, da forma como se sustenta a alteridade do outro e do lugar da relação co-construída no campo terapêutico.
É um trabalho que nos confronta com os nossos próprios limites. Que exige formação teórica contínua, psicoterapia pessoal, supervisão clínica e partilha entre pares. Que nos obriga, tantas vezes, a suportar o insuportável, a tolerar a dúvida e a reconhecer a impotência. Mas é também um trabalho profundamente vivo, dinâmico, onde, entre o silêncio e a palavra, pode surgir algo de verdadeiramente transformador – nos pacientes e em nós.
Neste Setembro, questionamos: o que significa, hoje, ser psicólogo? Talvez a resposta não caiba num só texto, mas talvez possa começar assim: ser psicólogo, hoje, é ter a coragem de parar e escutar, mesmo quando tudo à volta gira e grita.
Caminhamos juntos?

