Sustentar a dúvida, sustentar o processo.

Na prática clínica não é a resposta que se impõe, mas a dúvida que insiste. Talvez o verdadeiro trabalho psíquico comece justamente onde a certeza falha. A dúvida povoa a experiência clínica de forma recorrente e é transversal a todos os intervenientes e processos que a compõem.

Enquanto fenómeno psíquico, a dúvida pode ser resistência face à implicação subjectiva, antecâmara do conflito interno, espaço entre o desejo e a interdição, lugar de introspecção. Terapeuta e paciente não estão imunes. É comum surgirem dúvidas sobre o processo, o vínculo, as intervenções, a competência técnica e a ética. Há momentos em que a dúvida se instala de forma quase palpável — no silêncio que se prolonga, na interpretação que hesita antes de ser dita, na sensação de não estar a chegar ao outro. A dúvida pode surgir como um desconforto difuso ou como um pensamento insistente: “Estarei a escutar o suficiente?”; “Estarei a intervir em excesso?”; “Estarei a falhar algo essencial?”. Por vezes, a dúvida do paciente convoca a do terapeuta; outras vezes, é o contrário. Há dúvidas que circulam no campo relacional antes mesmo de serem formuladas. A dúvida pode ser comunicada como sintoma, como silêncio, como acção, como intelectualização. Escutá-la implica distinguir entre a dúvida que protege e a dúvida que aprisiona.

A dúvida insiste, convoca a nossa própria vulnerabilidade e um encontro com a humildade. Entre a dúvida clínica e a incerteza técnica, enquanto terapeutas, talvez seja importante lembrar que não é só sobre aquilo que acolhemos e escutamos, mas também sobre o que nos vai dentro, sobre os nossos próprios processos de reconhecimento e validação.

A clínica contemporânea não escapa ao flagelo do imediatismo – a cultura da resposta rápida, a busca por certezas diagnósticas e a expectativa de soluções objectivas. Embrulhados na entropia dos estímulos, a dúvida insiste. Insiste no silêncio. Insiste na escuta. Insiste onde a certeza se apressa. Isto leva-me a pensar na função transformadora da dúvida, enquanto motor da descoberta.

A psicoterapia deve ser um lugar que sustenta a dúvida, onde se tolera o não-saber, se acolhe a incerteza, o vazio e o silêncio e se respeitam os ritmos subjectivos. Isto porque a pergunta pode afunilar a perspectiva e a resposta abreviar caminhos e possibilidades. A verdadeira disponibilidade oferece amplitude e horizonte. Entre a certeza sintomática e a dúvida elaborativa, constroi-se o espaço analítico, lugar de rêverie, em que a dúvida abre caminho para a contemplação e favorece momentos de elaboração e novas significações. A dúvida enquanto motor do processo psicoterapêutico, permite-nos ocupar um espaço intermédio – nem dentro, nem fora – espaço potencial, lugar dinâmico de criação e de emergência simbólica. Por isso entendo que devemos sustentar a dúvida como ética do trabalho clínico.

As certezas podem encapsular a criatividade e desnortear o caminho da descoberta. A dúvida insiste e permite-nos explorar sem atalhos redutores da experiência. Acolher e tolerar a dúvida pode ter tanto de angustiante como de apelativo. A inquietação pode ser um estímulo para a descoberta e um apelo para respeitar o tempo próprio dos processos de crescimento — com os seus obstáculos, desvios e resistências, mas também com as suas possibilidades de sonho, elaboração e conquista.

Sustentar a dúvida não significa permanecer na indecisão crónica nem abdicar da responsabilidade técnica. Significa, antes, resistir à sedução da omnipotência e aceitar que o trabalho clínico se constroi na incompletude. Que tenhamos sempre a dúvida para nos inquietar e nos mover, no dinamismo da experiência relacional.

Caminhamos juntos?

 

Nota: Este artigo foi escrito com acordo ortográfico por opção do autor.

Marta Ribeiro

Marta Ribeiro

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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