É possível?

A integração dos pais na intervenção psicológica com adolescentes exige do terapeuta um pensamento sensível do que envolve o caso.  Sendo esta fase do desenvolvimento marcada por uma tensão estrutural entre dependência e autonomização, a intervenção deve ser pensada de forma diferenciada e continuamente ajustada à singularidade de cada pedido.

Num primeiro momento é importante distinguir quem formula o pedido e os motivos, o manifesto e o latente. A escuta clínica deve permitir clarificar estes diferentes níveis desde o início, evitando colagens acríticas ao discurso parental ou, inversamente, uma aliança prematura exclusivamente com o adolescente. O pedido manifesto pode ser apresentado pelos pais como dificuldades do filho, mas o motivo latente estar relacionado com conflitos familiares ou ambivalências no exercício da função parental. E o acompanhamento pode ser feito só aos pais.

A forma de integrar os pais depende também da organização psíquica do adolescente, do seu grau de dependência emocional e material, e da sua capacidade de simbolização e mentalização. Em adolescentes mais dependentes, com fragilidades estruturais ou com sintomas graves, a presença e o trabalho com os pais tornam-se mais centrais e, por vezes, prioritários.

No entanto, na maioria das situações, é adequado realizar uma primeira entrevista com os pais e o adolescente presentes. Este momento permite observar as dinâmicas familiares, os lugares atribuídos a cada um e as modalidades de comunicação. É importante ser claro que este encontro inicial não configura o espaço terapêutico do adolescente, mas sim um momento de avaliação e enquadramento. Estes momentos podem ser vividos como penosos para o adolescente ao ouvir as queixas dos pais perante um estranho. Pode-se deixar para outro momento ouvir só os pais.

O contrato terapêutico é necessariamente triangular: adolescente, pais e terapeuta. Embora os pais assegurem o pagamento e a autorização legal, é fundamental garantir ao adolescente que o espaço terapêutico lhe pertence. Devem ser explicitas as regras de confidencialidade, os limites da mesma (situações de risco) e as modalidades de contacto com os pais. Qualquer troca de informação com estes deve ocorrer com o conhecimento e consentimento do adolescente, reforçando a sua posição de sujeito no processo.

Após o enquadramento inicial, o espaço é do adolescente e o trabalho deve centrar-se nele, promovendo a sua autonomia psíquica e a construção de um espaço próprio de pensamento. A intervenção com os pais passa a ter uma função de apoio e contenção. Estes encontros parentais podem ser pontuais ou regulares, conforme acordado.

Integrar os pais não significa invadir o espaço do adolescente, tal como garantir a autonomia do jovem não implica excluir os pais do processo. O trabalho clínico consiste precisamente em sustentar este equilíbrio dinâmico, respeitando o movimento de separação–individuação sem desconsiderar a realidade da dependência material e emocional ainda existente.

No fundo, a integração dos pais na intervenção com adolescentes deve ser pensada caso a caso, sustentada por um enquadramento claro, uma leitura estrutural do funcionamento psíquico e um posicionamento ético que reconheça o adolescente como sujeito, sem perder de vista o lugar e a responsabilidade parental.

 

Caminhamos juntos?

 

Nota: Este artigo foi escrito sem acordo ortográfico, por opção do autor.

Alice Lucas

Alice Lucas

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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