Para o psicoterapeuta, as férias são muito mais do que uma simples pausa no calendário. São um tempo necessário de cuidado, de silêncio interior, de reencontro com o próprio ritmo — um momento que permite retemperar a escuta e sustentar, com presença renovada, o espaço terapêutico.
Este tempo de descanso não serve apenas para “desligar”: é fundamental para manter a qualidade do nosso trabalho e para preservar a relação que, com tanto cuidado, vamos construíndo com os nossos pacientes.
Mas a ausência, mesmo que temporária, pode trazer desafios — tanto para nós como para quem nos procura. É comum surgirem sentimentos ambivalentes: culpa por parar, ansiedade quanto ao regresso, receio de perder o que foi construído. Do lado dos pacientes, também as reacções variam: há quem sinta ansiedade ou insegurança, quem resista à ideia da pausa e, por vezes, quem interrompa o processo.
Como estar preparado para estes momentos?
Na prática clínica, precisamos olhar as pausas não apenas como meros intervalos logísticos, mas como acontecimentos psíquicos. Marcam a ausência e, com ela, despertam afectos, convocam memórias, reactualizam experiências precoces de separação, perda, abandono ou espera.
Para alguns pacientes, as férias do terapeuta podem ser vividas como uma quebra na continuidade do vínculo, um vazio que activa fantasias: será que o meu terapeuta ainda se lembrará de mim? E se não voltar?
Para outros, a interrupção pode ser acompanhada de alívio, liberdade ou até culpa por esse alívio.
Estas reacções falam-nos da transferência, esta forma singular e particular de reencontro com relações significativas do passado, agora vividas no vínculo com o terapeuta.
E é por isso que as férias, longe de serem um contratempo, são matéria viva para o trabalho terapêutico.
Do lado do terapeuta, fazer uma pausa é também um gesto ético de cuidado com o outro, mas sobretudo consigo. Um psicoterapeuta exausto arrisca-se a escutar menos, a deixar de ser presença suficientemente boa. As férias protegem a capacidade de acolher, de pensar e de sustentar o lugar do outro em nós.
A pausa, quando nomeada, pensada e integrada no setting, não rompe o vínculo; pelo contrário, reforça-o. Permite que, em torno do vazio da ausência, se atravesse a espera e se descubram novas formas de estar em relação.
Afinal, o trabalho psicoterapêutico também se faz nas pausas.
Caminhamos juntos?

