Escutar é acolher sem invadir, é suportar o não saber, é sustentar um espaço onde o inconsciente fala, sem o obrigar a responder às exigências do imediato.

Na prática psicanalítica, a escuta clínica é mais do que uma técnica: é uma ética. É através dela que nos posicionamos perante o sofrimento do outro, não como detentores de um saber sobre, mas como parceiros numa travessia que só pode ser feita no tempo próprio da fala e do desejo.

Escutar é acolher sem invadir, é suportar o não saber, é sustentar um espaço onde o inconsciente fala, sem o obrigar a responder às exigências do imediato.

O dispositivo analítico assenta, desde Freud, num compromisso com uma escuta particular: flutuante, livre de intenções directivas e atenta não apenas ao conteúdo manifesto, mas àquilo que se repete, que se omite ou que se desloca. Escutamos também o que não se diz – os lapsos, os actos falhados, o silêncio.

Estes elementos, longe de serem ruídos ou falhas da comunicação, são precisamente aquilo que revela a verdade do sujeito.

Mas escutar, na clínica, é uma prática que nos convoca integralmente. Porquê?

Porque implica uma presença que vai para além do escutado, uma disponibilidade ética que não se resume a técnicas ou saberes prévios. Escutar, verdadeiramente, é abrir-se ao encontro com o que no outro é ainda desconhecido, estranho ou mesmo silenciado.

É aceitar não compreender de imediato, é acompanhar o tempo próprio do sujeito — aquele tempo que nem sempre se alinha com o da lógica ou da cronologia. Escutar é, muitas vezes, habitar o intervalo entre as palavras, sustentar o vazio onde algo pode, enfim, surgir.

Na prática psicanalítica, acreditamos que o paciente, ao ser escutado neste lugar de não-saber, poderá encontrar-se com algo de si que estava perdido, recalcado ou ainda por nascer. E isto exige do terapeuta não apenas escuta, mas implicação, ética e desejo de saber menos — para poder ouvir mais.

Este tipo de escuta, porque não se apressa a interpretar nem se sustenta em certezas, pode parecer desconcertante. No entanto, é precisamente essa suspensão do saber que abre espaço para que algo novo emerja — não como resposta pronta e imediata mas como construção singular do sujeito.

Ao escutar assim, tornamo-nos cúmplices de um percurso que não dominamos nem controlamos. Colocamo-nos lado a lado com o outro, não à frente, nem atrás. E, neste gesto, reconhecemos o paciente não pelo que já sabemos dele, mas pelo que ele pode vir a dizer de si, pela primeira vez.

Há, pois, uma radicalidade nesta escuta: ela não pretende ajustar comportamentos nem corrigir desvios, mas oferecer um espaço onde o paciente pode experimentar dizer-se de outra maneira. E isso exige tempo, silêncio, paciência — e um compromisso com a alteridade.

Porque escutar, na clínica, é dar lugar ao que ainda não tem lugar. É sustentar a palavra quando ela falta. É acompanhar o outro mesmo quando ele não sabe ainda o que quer dizer — e talvez, justamente aí, algo verdadeiro se possa dizer.

Caminhamos juntos?

Andreia Cavaca

Andreia Cavaca

Directora Clínica Área Psicoterapia, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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"Mas escutar, na clínica, é uma prática que nos convoca integralmente. Porquê?"