Quando recebemos o pedido manifesto dos pais em ajuda ao filho, este configura o pedido latente da dinâmica familiar. Ao mesmo tempo, recebemos a criança respeitando a sua natureza, proporcionando um espaço só seu, dentro do nosso campo. De alguma forma num lugar não-espaço da família, este poderá tornar-se familiar aos olhos da criança e na perspetiva dos seus pais. E aqui surge um novo vértice da triangulação familiar-formamos um quadrado.
Neste respeito pelo tempo da criança, no eixo da psicologia e psicoterapia infantil, a “escolha” do paciente-sintoma parece ter sido sempre um desafio: Os pais fazem um pedido para eles, para os filhos, transmitem um pedido, solicitam tempo para as suas próprias infâncias, fazem-se maternalizar, competem, precisam de colo para dar colo…E a criança tem sempre o seu próprio pedido que nos cabe ouvir, receber, legendar e corresponder na medida que nos é alcançável.
Frequentemente, tendemos a procurar e a escolher “a” fórmula que melhor responde à forma de nos organizarmos no contexto psicoterapêutico, que constitua uma série de princípios estabilizadores de um caos basilar na natureza do nosso “objeto” de trabalho. Cada um de nós saberá melhor qual a receita que poderá funcionar para si, mas independentemente da nossa escolha, há algo que parece não podermos escolher. São sempre os nossos objetos internos que ajudam a localizarmo-nos nas famílias, encontrar o lugar da criança nesta constelação, assim como encontrarmos e construirmos o nosso. Identificarmo-nos com a criança e seus objectos, identificarmo-nos com os pais, indivíduos e relação, identificarmos o materno em nós, o paterno em nós, o feminino em nós, o masculino em nós, a competição, a maternage, a zanga incumprida, a capacidade de Rêverie.
A nossa posição relativa encontra sempre a criança, mas terá (até com o adulto) de incluir as suas pessoas. Não há filhos sem pais, não há pais sem filhos e esta premissa é a organicidade à qual não podemos desviar o olhar e, no centro das decisões terapêuticas que vamos tomando, sem querer ocupar o lugar central da criança, abraçar quem a abraça (ou incapaz de o fazer), com equilíbrio, parece-nos intransponível. Talvez injusto não o fazermos dado que talvez, só talvez, corramos o risco de deixar a criança sozinha, mais uma vez sem tradução, sem voz.
Por isso, apesar das escolhas que fazemos, temos em crer que receber a criança e sua família é sempre um desafio à nossa maturidade enquanto psicoterapeutas, onde se entrecruzam vínculos sobrepostos que desafiam a nossa capacidade de vinculação, e disponibilidade para identificar e renovar os nossos próprios laços.
Caminhamos juntos?

