Ser psicólogo, por si só, pode significar, por vezes, viver na insegurança. Do que devia ou não devia ter sido feito, do que devia ou não devia ter sido dito, do que se poderia ter feito mais e do que foi feito demais. E, no início da carreira, essa insegurança não só existe — ela amplifica-se, ganha corpo, voz, presença.
Lembro-me de como esse início tem uma luz própria. Um entusiasmo quase inquieto, uma vontade enorme de fazer bem, de estar à altura, de não falhar. Mas essa mesma vontade traz consigo um peso silencioso: a ideia de que cada passo tem um impacto profundo na vida de alguém. E então a dúvida instala-se, persistente: Terei feito o suficiente? Terei falhado em algo essencial?
A insegurança transforma-se num bicho de sete cabeças que nos devora a alma, os pés, as mãos e os olhos, deixando-nos apenas com os sentidos mais crus — aqueles que não conseguimos controlar nem filtrar. No consultório, esse lugar que é ao mesmo tempo encontro e isolamento, essa sensação torna-se ainda mais intensa. Estamos ali, só nós e o outro, a partilhar pesos que nem sempre sabemos bem como segurar.
E a solidão do consultório pode ser das experiências mais desafiantes. Porque, naquele momento, não há ninguém a quem possamos recorrer. Quem é que nos ajuda a pensar no que está a ser dito? Quem é que valida o caminho que estamos a seguir? Quem é que nos diz se fizemos bem ou mal — e, se fizemos mal, o que é fazemos a seguir? No consultório não há notas, não há classificações. Há apenas a verdade do sofrimento do paciente e a verdade, por vezes desconfortável, de que há momentos em que não sabemos mesmo o que estamos a fazer.
Talvez seja esse um dos maiores choques: perceber que a faculdade — com toda a sua importância — nos preparou para sermos académicos, mas não necessariamente para sermos psicólogos no encontro real. Sabemos procurar, analisar, escrever, fundamentar. Mas diante do paciente concreto, da história imprevisível, da dor que não cabe em categorias, tudo isso pode parecer insuficiente. Os livros que antes nos protegiam tornam-se ferramentas de consulta, mas já não nos dão o chão firme que esperávamos.
E então surge aquela sensação estranha, quase infantil: como um filho que descobre que a mãe não tem todas as respostas. Que também falha, que também hesita. E, nesse reconhecimento, há uma perda — mas também o início de algo mais verdadeiro. Porque ser psicólogo em início de carreira é, no fundo, confrontarmo-nos com a nossa própria humanidade. Insegura, falível, ansiosa, mas também profundamente empática e disponível para aprender.
No meio disto tudo, há ainda um outro desafio: encontrar os nossos pares. Construir comunidade. Porque, apesar de este caminho poder ser profundamente solitário, ele não tem de o ser. E, no entanto, aproximarmo-nos desses espaços — de intervisão, de supervisão — pode ser, no início, assustador. Expor dúvidas, admitir falhas, partilhar inseguranças… tudo isso pode parecer demasiado.
Mas são precisamente esses espaços que, com o tempo, se tornam âncoras. Lugares onde a dúvida deixa de ser um sinal de incompetência e passa a ser reconhecida como parte do processo. Onde percebemos que o lugar onde estamos não é único nem isolado: é um lugar habitado. Há colegas que já passaram por ali, outros que ainda lá estão, outros que lá chegarão. E, de repente, aquilo que era angústia começa, lentamente, a transformar-se em pertença.
É também nesses espaços que começamos a desconstruir uma das ideias mais pesadas do início da carreira: a necessidade de perfeição. Esse impulso de não falhar, de lembrar tudo, de aplicar tudo corretamente. A realidade do consultório ensina-nos outra coisa — que não há perfeição possível no encontro humano. Que falhar faz parte. E que reconhecer esse falhar, em espaços seguros, nos torna mais conscientes, mais cuidadosos, mais fortes.
Aprendemos que ouvir verdadeiramente não vem dos livros, mas da prática — dessa exposição contínua ao outro, nesse “abismo solitário” que o consultório pode ser. E mesmo essa aprendizagem nunca se fecha, nunca fica completa.
Ser psicólogo em início de carreira pode, de facto, ser um caminho só. Mas não precisa de o ser. Porque é na partilha, na supervisão, nos grupos, nas conversas informais e nos silêncios compreendidos que começamos a encontrar sentido. Que começamos a perceber que o “não saber” não é um erro — é apenas um “ainda”.
E talvez seja isso que transforma tudo: perceber que, no meio de tanta incerteza, estamos exatamente onde precisamos de estar. A começar. A aprender. A tentar, todos os dias, ser — não perfeitos — mas suficientemente bons.
Porque, no fundo, ser psicólogo no início de carreira é isso mesmo: ser humano. E há, nisso, uma fragilidade enorme — mas também uma forma muito bonita de aventura.
Caminhamos juntos?

