Presença, limites e cuidado da posição clínica

Na prática clínica, é frequente falarmos de métodos, modelos teóricos, técnicas e enquadramentos. Tudo isto é importante e base do nosso trabalho. Mas nada disto funciona sozinho.

Entre o paciente e qualquer técnica existe sempre alguém: o psicoterapeuta. Com o seu corpo, a sua história, a sua sensibilidade e os seus limites.

Dizer que o psicoterapeuta é a principal ferramenta do seu trabalho não é afirmar que ele é o mais importante, mas que é o meio através do qual tudo vai acontecendo. É através da sua escuta que as palavras ganham forma. É através da sua presença que o silêncio se torna criativo. É através da sua capacidade de sentir e pensar que a experiência do outro encontra espaço e tempo.

A clínica não acontece num espaço neutro. Acontece num encontro entre dois mundos psíquicos, onde o terapeuta não é um observador externo, mas um participante implicado. Mesmo quando se procura ser discreto, é sempre atravessado: pelo que escuta, pelo que ressoa, pelo que o toca sem que, muitas vezes, dê por isso.

Por isso, a ferramenta que somos não é estanque, rígida nem tampouco acabada. Transforma-se em cada experiência, com os encontros, com os impasses, com as falhas e com as reparações. Cada paciente deixa marcas; não visíveis, mas reais. E é com cada paciente que vamos moldando, tal como o barro, o modo como escutamos os seguintes.

Há, neste lugar que ocupamos, uma exigência silenciosa: a de cuidar da nossa própria disponibilidade. Escutar não é apenas estar presente; é estar disponível por inteiro.

E essa disponibilidade depende de muitas coisas: do cansaço, do número de consultas, da densidade dos casos, das nossas histórias pessoais que se activam com as histórias dos outros, dos lutos e das alegrias que atravessamos fora (e dentro) do consultório.

Quando a ferramenta (que somos nós) se desgasta, a escuta tendencialmente empobrece. Não por falta de intenção, mas por falta de espaço interno.

A mente fica mais rápida, mais defensiva, mais colada às respostas conhecidas e automáticas. O risco não é errar mais, mas escutar menos.

Por isso, cuidar da ferramenta que somos é parte do trabalho clínico. Não pode ser visto como algo acessório, como requisito formal e obrigatório, nem como “escolha pessoal”. É profundamente profissional.

A supervisão existe, em grande parte, para isso: para cuidar da ferramenta. Para dar lugar ao que ficou por pensar, ao que se confundiu, ao que se tornou pesado demais para ser pensado a sós.

A psicoterapia pessoal cumpre a mesma função: não como requisito formal, mas como espaço onde o terapeuta é paciente e pode voltar a escutar-se, voltar a sentir sem ter de sustentar o outro.

Também os limites fazem parte desse cuidado. Limites de tempo, de número de consultas, de disponibilidade fora do setting. A ferramenta que somos precisa de descanso, de espaço de pensamento, de alteridade e de vida. Precisa de outros para se reorganizar: supervisores, colegas, espaços de partilha, escrita, leitura; espaços sociais de descontração, espaços familiares de encontro. Precisa, sobretudo, de não ser tratada como inesgotável.

Talvez a maturidade clínica não esteja em saber mais técnicas, mas em conhecer melhor a própria ferramenta. Saber onde é mais sensível. Onde é mais rígida. Onde se cansa mais depressa. Onde precisa de ser cuidada para poder continuar a cuidar.

No fundo, trabalhar em psicoterapia é aceitar esta condição paradoxal: somos instrumento, mas também somos matéria viva; somos ferramenta, mas também somos sujeito; somos apoio para o outro, mas também precisamos de apoio para continuar a sê-lo.

Cuidar do psicoterapeuta que somos é um gesto ético. Porque só uma ferramenta viva, cuidada e pensante pode sustentar, com verdade e autenticidade, o encontro clínico.

Caminhamos juntos?

 

Andreia Cavaca

Andreia Cavaca

Directora Clínica Área Psicoterapia, Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
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