Nesta altura do ano, pode acontecer recebermos presentes: alguns literalmente embrulhados, outros oferecidos em pequenos gestos, em palavras escritas, em algo deixado esquecido no cadeirão aquando a última sessão antes do Natal.
E, de repente, um gesto “aparentemente” simples adensa o espaço clínico. Vamos pensar?
Contardo Calligaris, no seu livro “Cartas a um jovem terapeuta”. diz-nos:
“O psicoterapeuta não deve esperar a gratidão de seus pacientes. Nada de presentes no Natal, na Páscoa ou nas outras festas. Nas curas que proporciona, o psicoterapeuta é, por assim dizer, ele mesmo o remédio. E, nos melhores dos casos, quando tudo dá certo, ele acaba exatamente como um remédio que a gente usou e que fez seu efeito: uma caixinha aberta, com as poucas pílulas que sobraram, no fundo do armário do banheiro. A caixinha é guardada durante um tempo, porque nunca se sabe; um dia a gente a encontra, não se lembra mais qual era seu uso, constata que, de qualquer forma, o remédio está vencido e joga fora. E é bom que seja assim. De fato, se a psicoterapia faz seu efeito, o paciente pára de idealizar o terapeuta”.
E é por isso mesmo que o presente de um paciente nunca é “apenas” um presente. Traz consigo uma história que conta a história das suas relações, das faltas e falhas, da gratidão, da fantasia da reparação, do medo da separação, do desejo de ser visto e reconhecido.
Cada presente contém, em si mesmo, um movimento psíquico: um pedido, um agradecimento, um teste, uma aproximação, uma despedida provisória, uma encenação das suas relações e dos seus traumas.
Aceitar ou não aceitar não é uma questão de protocolo; é uma questão ética e clínica. O essencial não passa por simplesmente cumprir a regra, mas sim entender o que esta oferta representa naquele processo psicoterapêutico, naquela pessoa, naquele exacto momento. E, tendo em conta tudo isso, reflectir sobre qual melhor decisão a tomar acerca do tal presente.
Muitos pacientes dão presentes porque podem, de alguma forma, temer a interrupção e tentam garantir um lugar na memória do terapeuta. Outros oferecem algo numa tentativa de retribuir o que sentem ter recebido. Há ainda quem ofereça porque não suporta ficar a dever e outros porque, na sua história, dar foi sempre a única forma de existir.
E nós, psicoterapeutas, como ficamos depois de receber o presente?
Importante balizarmos a nossa prática clínica sempre com questionamento e humildade de quem nada sabe; por isso, perante estas situações, perguntar-nos: o que é que este presente está a tentar dizer? De que vazio protege? Que fantasia tenta assegurar? Para que lugar me convoca?
Aceitar um presente é, muitas vezes, aceitar um pedaço da narrativa do paciente. Recusá-lo é, por vezes, oferecer-lhe um espaço de elaboração. Em qualquer dos casos, o presente é sempre uma oportunidade de escuta e essa nunca deve ser negada.
No fundo, o que o paciente oferece nunca é o que está embrulhado, é o vínculo. A esperança de que o psicoterapeuta o leve consigo, mesmo quando não estão juntos. E nós, ao escutarmos esse gesto com cuidado, respeito e delicadeza, devolvemos não apenas presença: devolvemos sentido. Atribuímos significado e símbolo ao que nos foi oferecido, assegurando ao paciente que reconhecemos aquilo que existe para além do objecto.
Caminhamos juntos?

