Aparentemente simples, é só dizer “não”, certo? Mas nem sempre é assim tão simples. O acto de dizer “não” carrega, muitas vezes, uma complexidade emocional e psíquica profunda. Muitas pessoas sentem-se culpadas, ansiosas ou até envergonhadas por colocarem limites, como se o “não” representasse um risco de perda, de rejeição, de desamor.
Na escuta psicanalítica, o “não” é muitas vezes uma palavra esquecida, omitida, recalcada. Não porque se desconheça o seu significado, mas porque o paciente não se autoriza a pronunciá-lo. Há quem tenha aprendido, na história das suas relações, que dizer “não” é desobedecer, desiludir, falhar. E há quem, por medo de magoar, acabe por se magoar a si próprio.
Dizer “não” implica um acto de separação simbólica. É um gesto que afirma a existência de um limite, de uma diferença entre o eu e o outro. Esse limite, no entanto, nem sempre foi respeitado na nossa história e é isso que, muitas vezes, torna o “não” tão difícil de dizer.
Na clínica, o trabalho passa por escutar os lugares onde o paciente se cala, se anula ou se adapta demasiado. Permitir que o “não” seja dito é, em muitos casos, um passo essencial na construção de uma posição mais autónoma, mais verdadeira, mais individualizada. Não como negação agressiva, mas como possibilidade de escolha.
Dizer “não” é também dizer “sim” a si mesmo.
Caminhamos juntos?

