Trabalhar na perinatalidade é entrar num tempo de particular vulnerabilidade psíquica. A gravidez, o parto e o pós-parto implicam profundas transformações no corpo, na identidade, nas relações e na forma como a mulher se reconhece a si própria.
A chegada de um bebé convoca o presente, mas convoca também a história. A filha que se foi, a mãe que se teve (ou que se desejou ter), as experiências de cuidado, as ausências, os medos, as expectativas e tantas outras experiências emocionais que podem ganhar uma nova presença neste período.
Há um movimento na perinatalidade que aproxima o mundo interno da superfície psíquica. E, para nós, psicólogos, isso representa simultaneamente uma oportunidade e uma responsabilidade. Porque quando alguém está mais vulnerável, a forma como nos relacionamos importa tanto quanto aquilo que sabemos.
Podemos conhecer a teoria da vinculação, compreender o desenvolvimento do bebé, reconhecer factores de risco, identificar sinais de sofrimento psicológico. Tudo isso é fundamental. Mas há uma pergunta anterior a todas estas: como estamos com aquela mulher?
Estamos disponíveis para escutar aquilo que ela está efectivamente a viver ou demasiado ocupados com aquilo que esperamos que esteja a viver? Conseguimos tolerar a ambivalência numa fase da vida tantas vezes idealizada? Conseguimos ouvir uma mulher que não se sente ligada ao bebé sem transformar imediatamente essa experiência num problema a resolver?
Conseguimos acompanhar sem antecipar o caminho?
Na perinatalidade, podemos tornar-nos importantes figuras de sustentação. A relação terapêutica pode oferecer um lugar onde a mulher continue ligada a si própria enquanto tudo à sua volta se transforma. Um lugar onde possa reconhecer o que sente, dar significado ao que está a viver e, progressivamente, encontrar espaço psíquico para conhecer e relacionar-se com aquele bebé real — que nem sempre coincide com o bebé imaginado.
E, por isso, um dos lugares mais importantes que podemos ocupar é o que quem não sabe antecipadamente o caminho, mas o de quem consegue acompanhá-lo.
Caminhamos juntos?